terça-feira, 9 de julho de 2013

UM DIA NO PARLAMENTO DE ANTÓNIO SÉRGIO EM 1925

EM 1925 ANTÓNIO SÉRGIO MINISTRO DA INSTRUÇÃO RELATA NUMA PAGINA UM DIA DA VIDA PARLAMENTAR DA ASSEMBLEIA DA REPUBLICA QUE PASSO A TRANSCREVER .


«Revejo a minha primeira ida ao Parlamento como uma tela acinzentada num lusco-fusco da imaginação.Nesse dia ,poucos deputados compareceram na Câmara .Eu via-os de lado ,e de cima .Logo me pareceu o anfiteatro ,com filas concêntricas das escrivaninhas e as linhas linhas concêntricas dos seus degraus ,uma série de costeletas depois de servidas ,mostrando pendentes aqui e além uns pedaços de carne não esburgada ,que seriam os ilustres Pais da Pátria ,a lembrarem no todo da sua atitude a agonia de uma ceia de carnaval ,ás primeiras horas do amanhecer.Erguia-se do fundo daquela modorra ,por sobre o livor das paredes da sala -o vário rumor das conversações.A galeria dos espectadores ,em cima ,vizinha do tecto ,dominava o recinto dos representantes com as bancadas curvas ,quase vazias,assim como um sector de praça de touros antes de os lugares se começarem a encher.Nos homens nenhum apuro de vestuário, nem de atitudes ,nem de expressão.Na imagem brumosa que me ficou da Câmara ,destaca-se um vulto de sobretudo alvadio ,todo espaparrado sobre o seu banco ,com a expressão de tédio de um borguista mole,extenuado ,exangue ,no morrer sonolento de alguma orgia.De perna estendida ,com ar de enjoo encara de pálpebras semicerradas os seus colegas legisladores,dos quais alguns se mantêm sentados,outros de pé ou deambulando ,muitos a falar do que lhes apetece e a abafar a orador que ora -e que ninguém ouve ,nem quer ouvir,nem se sabe onde está,nem o que é que nos diz....Pareceu-me salientar-se sobre toda a Câmara o disco alva-cento do relógio da sala,com os negros ponteiros e os números negros,todo ele gravidade ,todo ele nitidez -a contar as horas que nos estavam levando (a nós ,àquela entrudada , ao país misérrimo ) para um destino incógnito em que ningúem pensa ....Vivo ,resplandecente ,enexorável ,o grande relógio de ponteiros negros ,dominando a Câmara ,era a única coisa regular e certa no meio da relaxação e de tudo mais.....
      «Nisto ,foi dada a palavra a um novo orador .Levanta-se um corpo,desequilibrado e mole;desce, cambaleando,pelos degraus em círculo ;cambaleando se rebola para o interior da Câmara ,de braço estendido como se leva-se um corpo; e ali fica gaguejando frases,diante da tribuna dos senhores ministros.Alguém segredou-me ;-Não parece estar bêbado o homenzinho ?Não parece que está ? Pareceu-me também .Disseram-me depois que na realidade o estava.Que era sempre assim.»

FICAMOS POR AQUI QUEM QUISER PODE SEMPRE LER O ANTÓNIO SÉRGIO ,ENSAIO ,TOMO III,2º ed ,LISBOA ,1937,págs ,231-233

SOBRE ESTE TEXTO À MUITAS COMPARAÇÕES QUE SE PODEM FAZER E QUE NOS DEIXAM A PENSAR SE O NOSSO PARLAMENTO CONSEGUE MERECER MAIS CREDIBILIDADE QUE O DA ENTÃO PRIMEIRA REPÚBLICA .

JOSÉ PAZ
LISBOA 2013

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