sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Minha Mãe ( A Velhice do Padre Eterno - Guerra Junqueiro )

    Minha Mãe

Minha mãe, minha mãe ! Ai que saudade imensa
do tempo em que ajoelhava , orando , ao pé de ti !
Caía a mansa noite ; e andorinhas , aos pares ,
cruzavam-se , voando , en torno dos seus lares ,
suspensos no beiral da casa onde eu nasci .
Era hora em que já sobre o feno das eiras
dormia , quieto e manso , o impávido lebréu .
Vinham-nos da montanha as canções das ceifeiras ,
e a Lua branca , além , por entre as oliveiras ,
como a alma dum justo ia em triunfo ao céu !
E , mãos postas , ao pé do altar do teu regaço ,
vendo a Lua subir , muda , alumiando o espaço ,
eu balbuciava a minha infantil oração ,
pedindo a Deus que está no azul do firmamento
que mandasse um alívio a cada sofrimento ,
que mandasse uma estrela a cada escuridão .
Por todos eu orava e por todos pedia :
pelos mortos , no horror da terra negra e fria ,
por todas as paixões e por todas as mágoas ...
pelos míseros que , entre os uivos das porcelas ,
vão em noites sem lua e num barco sem velas ,
errantes através do turbilhão das águas .
O meu coração puro , imaculado e santo
ia ao trono de Deus pedir , como ainda vai ,
para toda a nudez um pano do seu manto ,
para toda a miséria o orvalho do seu pranto
e para todo o crime o seu perdão de pai .....
..... ..... ...... ...... ...... ....... ....... ....... ........ .......

Uma parte deste lindíssimo poema de Guerra Junqueiro , uma reflexão na proximidade do meu aniversário e também a saudade do meu tempo de menino , no qual me identifico com este início desta poesia .

José Paz
Lisboa 22 / 08 / 2014

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