Longe vai o ano de 1993 , este foi o ano do Idoso celebrado em Portugal , com razões para acreditar no futuro da Terceira Idade saudável , num país em crescimento e desenvolvimento social e económico , com uma Europa a ser fonte de todos os caprichos governativos do governo de então que ficou conhecido pelo governo do betão e do alcatrão .
Muitos dos governantes dessa época já cá não estão , outros estão reformados , mas outros estão no activo da vida pública e estão em cargos de representação nacional e em lugares de governação e gestão empresarial públicos e privados .
Ora qualquer cidadão à data de 1993 em plena actividade laboral e a meio de uma vida contributiva ( 40 /45 ) , já pensava no seu futuro , na sua reforma , na sua velhice .
Se bem me recordo na década de noventa havia uma vontade de construir um sistema social abrangente e digno para fazer face às necessidades da terceira idade , havia o desejo de garantir um sistema de saúde igualitário e justo que promovesse os cuidados continuados , proporcionando bem estar e uma solidez e estabilidade para com aqueles que não tendo saúde nem condições económicas não ficassem à margem da solidariedade do Estado .
Nessa altura a sociedade convivia bem com os seus Velhos , Idosos , neles era reconhecido o valor do conhecimento da vida , havia uma interacção , convívio , partilha entre as gerações e quer fosse no campo laboral ou social estavam integrados nas mais diversas actividades da sociedade e da família , bem como do Estado diga-se Governo .
Ser Velho , Idoso , era sinônimo de respeito e saber , era sinônimo de união e família era sinônimo de uma sociedade justa , fraterna , solidária , equilibrada .
Mas mudaram os tempos e as atitudes , mudaram as mentalidades e hoje ser Velho , Idoso , é mais um número no Estado e no agregado Familiar , é ser um custo para o Estado e para a Família , é ser um estorvo ao desenvolvimento do Estado e da Família .
Porque mudou o conceito social e familiar , porque se dá mais valor hoje ao individual que ao colectivo , que se aceita melhor a solidão ao invés da socialização , porque Velho é agora custo , porquê saúde é agora luxo , porquê vida da é agora lucro .
Hoje há milhares de Velhos , Idosos , sozinhos , na mais desesperada solidão , no mais profundo esquecimento , nas suas casa o mundo é um circulo sem vida , na sala de jantar uma mesa é mais um objecto do qual o olhar desesperado repousa na imensidão da recordação vazia de afectos , as mãos enrugadas que sobre ela pousam apenas compõem a tolha de renda feita de um amor sem tempo , esse que agora sobra do nada , mas depresa se levantam para limpar do rosto essas lágrimas que juntas contam a desilusão da vida .
Outros milhares são entregues em depósitos de objectos vivos , mas sem direito de vida , foram colocados ali como um objecto Velho , usado , sem utilidade , como se estivessem arrumados num canto do sótão . Mas quando vêm o tempo das Festas , são lembrados , vão lá ao canto do sótão buscar o Velho e o apresentam como uma relíquia esquecida e guardada dos anos e dos olhos , desses olhos que não vêem para que o coração não sinta.
Pois que se diga em palavras simples a vida não é um número , o Estado , o Governo têm o dever e a obrigação de cumprir para com aqueles que honraram os seus compromissos com muito trabalho , suor , lágrimas e sangue , e isto é e deve ser uma exigência de todos .
Quanto à Família , é bom que se lembrem quando andarem a passear , quando estiverem a jantar , quando assistam a um cinema , daqueles que não pedindo nada estão em silêncio esperando o passar das horas até ao último segundo padecendo do amor que sentem por aqueles que o amor desprezam .
Pode parecer demasiado cruel estas minhas palavras , mas se queremos ter Velhos activos e saudáveis , somos nós sociedade que devemos exigir que se cumpra um dever de ricos e pobres , e que é lutar pelo direito à dignidade humana ao mínimo de conforto e respeito social e económico seja ele Família ou Estado .
José Paz
Texto do autor
Lisboa 14 / 08 / 2014
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